Estava ali olhando para o nada e, de repente, o nada apareceu imenso em minha frente! E eu olhei fundo, mais longe, intensamente! E o nada cada vez maior, aumentando... a janela aberta, o céu limpo, o ar puro, a hora livre, o corpo leve como se fica depois de uma boa noite de sono e de um intenso exercício de flexibilidade. O coração aberto. A mente conectada apenas com a percepção dos sentidos. O vazio. Um imenso e gigantesco vazio. Um vazio particular, velho conhecido. Um vazio familiar. O meu vazio. O eu vazio.
E eu me enchi de vazio, com a certeza de que estar vazio é bom. Esvaziar-se é criar espaço. É dar-se ao novo. Aventurar-se. Abrir-se para as possibilidades. O vazio é o aberto, é a recepção. É no vazio que as coisas se constroem. É no vazio que os corpos se movem, as mentes criam, os espíritos descansam. Estar vazio é bom.
É no papel vazio que se escrevem versos; é no pacote vazio que se colocam balas; é a cadeira vazia que se oferece a sentar. É no útero vazio que se semeia a vida. E na terra vazia nascem os brotos da colheita.
Há que se ficar vazio. O vazio é o descanso antes do tempo de preparo, antes do cultivo. O vazio é o tempo da espera. O tempo do sossego. Há que se contemplar o vazio e largar-se de tudo, esvaziar-se completamente, para deixar o novo entrar. Deixar o ar entrar. A mudança entrar. Transformar. Limpar. E que o novo venha pleno, e não cheio, apenas.