Hoje é a última aula de Altiloquência e cada um de nós elaborou um discurso. Como eu não tinha a menor ideia do que dizer de relevante a vocês, vou apenas seguir a técnica.
Primeiramente, eu agradeço à Joyce, pela oportunidade de falar, porque nós somos mulheres e, como típica mulher, eu adoro falar! E, geralmente, as minhas amigas me fazem escutar.
Em segundo lugar, agradeço ao Josimar que, sendo homem e conhecendo a prolixidade das mulheres, garantiu-me (e a todas nós) alguns minutos de silêncio e atenção da turma, ao (meu) discurso.
Agradeço, também, à minha mãe, que nunca estudou discursos, mas cantou comigo os pios dos passarinhos e, com seus tons e sons de amor, me deu a conhecer um mundo de cores e flores que aliviam as dores de algumas palavras.
E agradeço, ainda - com pesar, porque a perda dele ainda dói -, a sisudez do silêncio sibilante das orações sussurradas do meu pai, ao folhear as sedas da bíblia aos domingos de manhã.
E, com a licença daqueles que não acreditam, agradeço, por fim, a Deus, pela maravilhosa oportunidade que ele nos dá, diariamente, de usarmos palavras para nos fazermos humanos. Dizem, "Deus fez o homem à sua imagem e semelhança" e o que nos assemelha a Ele, em perfeição, é a possibilidade de discursar.
Porque Deus nos fez com pulmões e nos deu ar para respirarmos; mas as plantas também respiram. Deus nos pintou com muitas cores; mas o arco-íris - sozinho - tem sete! Deus deu à mulher a possibilidade de unir sua carne ao homem, sentir prazer e criar a vida; mas os animais também procriam após unirem-se carnalmente. Só a mãe humana, entretanto, oferta o seio à sua cria, para além do toque e do olhar: com palavras.
E, para não perder a técnica, vou contar uma história sobre a importância de agradecer a oportunidade de discursar:
Quando eu era criança, lá no interior, às vezes o fornecimento de luz era interrompido durante a noite. E a cidade, a rua, a casa ficavam imersos na escuridão. Então as pessoas se reuniam, e, por não conseguirem ver, prontificavam-se a ouvir. Falava quem sabia mais: lá em casa, meu pai. Ou falava quem comovia mais: minha irmã pequena, que chorava por tudo e roubava a atenção da minha mãe. Ou, falava quem fazia rir: meu irmão. E eu, de mente curiosa, de coração mole, de riso aberto, arregalava os sentidos, prestava atenção e me calava.
Em meio a tantos discursos, eu, que saí do Paraná aos 4 anos, com o cheiro da bergamota nos dedos, que acabavam de largar a mamadeira, e com o som aoveolar dos meus /érres/, calei-me diante daqueles sonoros e guturais /érris/ do insistente 'ela fala errado' que eu ouvia das minhas amigas baianas...
E por não ter, fora da escola, quem garantisse o espaço para a variação do meu discurso, fui estudar as palavras, ou melhor, as Letras, para vencê-las! E estudando, aqui estou, novamente, em sala de aula, já sem os sons fechados dos meus antigos /ês/ e /ôs/, mas ainda de coração puro e aberto, para aprender:
Por isso agradeço, uma vez mais, aos meus professores, pela liberdade que me ensinaram a buscar.
Por isso agradeço a cada um de vocês, mesmo àqueles que permaneceram calados, por matricularem-se neste curso e, com isso, garantirem sua execução. Não há cursos sem alunos, ainda que calados!
Agradeço, com especial carinho, a todos os que trocaram algumas palavras comigo e, com isso, tornaram as manhãs desta semana mais ricas e leves.
Agradeço e encerro, com todo o amor das minhas palavras, àqueles que discordaram de mim, e o fizeram à moda antiga, como nos romances de cavalaria, olhando nos olhos: são vocês a quem devo a possibilidade de reconstruir-me e ao meu discurso.