Fiat caixinha de fósforo. Crianças acomodadas no banco de trás. Um irmão de cada lado. Eu no meio. Passo mal.
Eu e o meu pai:
"Então, olha pra frente! Lá bem longe!"
"Tá."
"Lê as placas! Vamos ver quem lê mais rápido?"
Eu leio.
"Pare!"
"Curva à esquerda."
"Proibido estacionar."
Meu irmão, sabido: "Parar e estacionar!"
O que é aquilo atravessando a pista?
Uma cobra?
Sim, uma cobra!
Eu, com meus devaneios: cobra é má. Tem de matar.
"Mãe, cobra pica?"
"Sim, pica."
"E mata?"
"Sim, mata."
Meu pai continua, em direção à cobra.
"Vai passar por cima?" - minha mãe, piedosa.
"Sim, vou atropelar."
"Sim! Atropela!" - Eu grito de lá. E continuo: "Se ela mata, então a gente pode matar."
E minha mãe:
"Que matar, que nada! Deixa o bicho lá. Tá na casa dele."
Meu pai:
"Não é a casa. É a estrada."
Já passou por cima. Andou mais devagar. Parou. Meu irmão lembra da placa.
Minha mãe, preocupada: "Vai parar?"
"Sim, vou acabar de matar."
"Matar pra quê?"
"Pro bicho não sofrer. Passei por cima e não morreu."
"Mas matar pra quê?"
"Pra não picar ninguém na estrada. Tirar a pele. Guardar o guizo."
Eu, preocupada:
"Pai, você não tem medo?"
Ele ri.
"E se ela te picar?"
"Não vai picar."
"Mas ela mata!"
"Então, tá. Deixo você matar."
"Eu não! Ela vai me picar."
"Ela não pica, você é mais rápida."
"Não! Eu tenho medo!"
"Então, tá. Não vou matar. Coloco num saco e trago pra cá. Você vai com ela no colo até a gente chegar..."
Só eu não entendo as risadas.
"Não! Ela vai me picar! Eu tenho meedoo!"
Tarde demais. Meu pai se foi. Pegou um saco de ráfia no porta-malas do carro, um facão e chegou lá.
Eu, chorando:
"Mãe, você vai deixar?"
Risadas do meu irmão.
"Fica quieta, menina, ele só vai matar!"
Eu, desesperada:
"Deixa eu ver!"
Salto para o banco da frente, fico no colo. Enfio a cabeça na janela pra olhar a cobra. Meu pai tá lá.
"Mãe! Ele tá colocando no saco!"
Abro a porta do carro e saio correndo. Corro até cansar.
Paro, ofegante. Olho para trás.
Minha mãe aos berros: "Volta aqui, menina!"
Eu, em prantos:
"Nãaaaaaaaaaoooooo! Ela vai me picaaaaarrrr!"
"Não! Ela vai me picar! Eu tenho meedoo!"
Tarde demais. Meu pai se foi. Pegou um saco de ráfia no porta-malas do carro, um facão e chegou lá.
Eu, chorando:
"Mãe, você vai deixar?"
Risadas do meu irmão.
"Fica quieta, menina, ele só vai matar!"
Eu, desesperada:
"Deixa eu ver!"
Salto para o banco da frente, fico no colo. Enfio a cabeça na janela pra olhar a cobra. Meu pai tá lá.
"Mãe! Ele tá colocando no saco!"
Abro a porta do carro e saio correndo. Corro até cansar.
Paro, ofegante. Olho para trás.
Minha mãe aos berros: "Volta aqui, menina!"
Eu, em prantos:
"Nãaaaaaaaaaoooooo! Ela vai me picaaaaarrrr!"