domingo, 17 de janeiro de 2016

A COBRA

Viagem para a fazenda. A família inteira no carro.
Fiat caixinha de fósforo. Crianças acomodadas no banco de trás. Um irmão de cada lado. Eu no meio. Passo mal.
Eu e o meu pai:
"Então, olha pra frente! Lá bem longe!"
"Tá."
"Lê as placas! Vamos ver quem lê mais rápido?"
Eu leio.
"Pare!"
"Curva à esquerda."
"Proibido estacionar."
Meu irmão, sabido: "Parar e estacionar!"
O que é aquilo atravessando a pista?
Uma cobra?
Sim, uma cobra!
Eu, com meus devaneios: cobra é má. Tem de matar.
"Mãe, cobra pica?"
"Sim, pica."
"E mata?"
"Sim, mata."
Meu pai continua, em direção à cobra.
"Vai passar por cima?" - minha mãe, piedosa.
"Sim, vou atropelar."
"Sim! Atropela!" - Eu grito de lá. E continuo: "Se ela mata, então a gente pode matar."
E minha mãe:
"Que matar, que nada! Deixa o bicho lá. Tá na casa dele."
Meu pai:
"Não é a casa. É a estrada."
Já passou por cima. Andou mais devagar. Parou. Meu irmão lembra da placa.
Minha mãe, preocupada: "Vai parar?"
"Sim, vou acabar de matar."
"Matar pra quê?"
"Pro bicho não sofrer. Passei por cima e não morreu."
"Mas matar pra quê?"
"Pra não picar ninguém na estrada. Tirar a pele. Guardar o guizo."
Eu, preocupada:
"Pai, você não tem medo?"
Ele ri.
"E se ela te picar?"
"Não vai picar."
"Mas ela mata!"
"Então, tá. Deixo você matar."
"Eu não! Ela vai me picar."
"Ela não pica, você é mais rápida."
"Não! Eu tenho medo!"
"Então, tá. Não vou matar. Coloco num saco e trago pra cá. Você vai com ela no colo até a gente chegar..."
Só eu não entendo as risadas.
"Não! Ela vai me picar! Eu tenho meedoo!"
Tarde demais. Meu pai se foi. Pegou um saco de ráfia no porta-malas do carro, um facão e chegou lá.
Eu, chorando:
"Mãe, você vai deixar?"
Risadas do meu irmão.
"Fica quieta, menina, ele só vai matar!"
Eu, desesperada:
"Deixa eu ver!"
Salto para o banco da frente, fico no colo. Enfio a cabeça na janela pra olhar a cobra. Meu pai tá lá.
"Mãe! Ele tá colocando no saco!"
Abro a porta do carro e saio correndo. Corro até cansar.
Paro, ofegante. Olho para trás.
Minha mãe aos berros: "Volta aqui, menina!"
Eu, em prantos:
"Nãaaaaaaaaaoooooo! Ela vai me picaaaaarrrr!"

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

GALOS NO QUINTAL

Dia das crianças na escola. Será que vai ter presente? Eu, sempre presente.

Fui.

Festa, brincadeiras. Banho de mangueira.

No final, a surpresa: uma imensa caixa (ou várias delas, não me lembro). Pintinhos dentro. Tão fofinhos, bonitinhos, sozinhos. Piadinhos. Piadeira! Fila feita, cada um com o seu.

Voltei com aquela coisinha na mão, cuidando muito, para não apertar. A professora disse para não apertar!

Cheguei em casa, uma alegria só! "Olha, mãe!!"

“Um pinto!” Espanto e risos. “Era só o que me faltava, um pinto... Esse povo não tem mais o que inventar. Se isso é bicho que se dê pra criar!” Minha mãe, íntima da bicharada, não deixou de comentar.

Uma caixa de papelão e uns panos, uns carinhos para começar e a coisa estava arranjada. “Agora é dar de comer e beber. E cuidar pra não morrer.”

Os dias passam, os bichos comem. Brincadeiras no quintal; corridas atrás do galo. E eu sempre perguntava: “Mãe, ele voa? Vai voar? Quero que voe. Esse vai voar, é especial! Voa, sim, você vai ver. Um dia vou acordar e ele vai estar em cima do telhado! No último galho da goiabeira, espera só.”

Cachorro preso, até acostumar. Galos crescem rápido! “Mãe, ele ficou graaaaannnde, né?!” Cresceu muito, pé de Abaporu. Enfrentava o cachorro, perseguia o gato. Briga insana. Eu ria, minha mãe ralhava. Preocupada que ela só com as escoriações no galo.

Volta e meia, as duas mãos na cabeça, olhando pra o chão, minha mãe se perguntava: “E agora? O que é que eu vou fazer com esse bicho? Essa escola!!! Professor só dá trabalho (Ah...tia Vanja! Ah...tia Ivete! E penso nas tantas outras professoras e nas exclamações que arrancaram dela, pelo trabalho em mim!)! Não tinha outra coisa para dar? Tinha que ser um pinto? Galo se cria pra matar, foi feito pra comer! Mas como é que mata, afeiçoada ao bicho? Fazer a criança chorar?”

Bicho que não vem no colo é igual brinquedo novo: uma hora perde a graça. Esqueci do galo. Voltei aos carinhos para minha gata. Continuei a perturbar a cachorra. E, mais do que nunca, voltei a conversar com meu papagaio! Galos não falam. Não cantam com palavras.

Um dia, voltei da escola, bem cansada. Sexta-feira, duas horas de parquinho. Um pouco mais! Perdi o horário! Bochechas cor de rosa, gotas transparentes correndo o rosto. Ofegante.

Nem dei tempo de ganhar a bronca: “Mãe! Eu tô com fome! O almoço tá pronto?” Já estava na mesa.

A seriedade da minha mãe, parada, mãos na cintura, me olhando. Falei mais nada. Lavei as mãos, correndo. Voltei. Sentei. Comi rápido. Muita fome. Lambi os beiços, me lambuzei. Polenta com galinha. Ao molho, muita cebola, bem douradinha!... Uma delícia! Coisa que só mãe faz pela gente depois de um parquinho na sexta-feira...

Saí da mesa satisfeita. Não sei se enxuguei a louça, ou guardei, para me redimir do atraso. Fui por aí, como criança faz depois de encher a pança. Sentei na varanda. Mirei o quintal. Silêncio. Aquele ar de quase sesta espanhola, interior da Bahia, duas da tarde. A cachorra deitada.

“Mãe, cadê meu galo?”

Minha mãe, ocupada, um tom de espanto, de quem estranha a filha, que come pouco, lá de longe, sem pensar: “Já guardei! Tá na geladeira! Quer mais?"

Eu, parada. Mão na boca. Estupefata. “Comi meu galo.”